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Porto - HGSA [1]

Posted: 10 Jan 2010 02:46
by Gaminha
Saio do autocarro em passo acelerado e sou apanhada pelo frio que me gela a pele. Luvas, gorro e cachecol e mesmo assim sinto-me morta. Desço a rua e revejo o que trago no saco. "Agua, robe, pão, livro..." Espero que nada me falte. Quando entro nas largas portas do hospital a fila é interminável. Gente pobre e miserável, empurram e apertam-se para entregar cartões. "Não sou assim" penso. E no meu lugar na fila tento parecer civilizada. Sinto o peito a apertar-se lentamente. No balcão de atendimento 3 mulheres usam e abusam do poder supremo que lhes foi atribuído. Conversam e fazem-nos esperar enquanto introduzem nomes no computador e dão cartões como autómatos. O segurança enxota o "gado" e vai gritando "Só as 11h". Recebo o cartão de visita e afasto-me para o lado para não ser atropelada. Sinto-me intelectualmente superior, a minha situação financeira é bem melhor que a deles, a diferença está nas roupas, no perfume na carteira de marca, no entanto sinto o mesmo medo que eles. Temos naquele momento o mesmo desespero e estou exactamente no mesmo lugar que eles.
Às 11h a massa de gente entra e empurra-se, e quando já se dissolveu sou a útlima a entrar nos corredores frios. Percorro os corredores em direcção à enfermaria M. Começo a sorrir para o meu amor não me ver preocupada e quando entro nas portas da enfermaria esbarro com o meu sorriso imbecil no quarto fechado.
Começo a olhar para os lados à espera de ver alguém que me consiga dizer algo, sinto-me uma criança perdida por breves segundos. Nas minhas costas ouço então a explicação para as portas fechadas: "Estão a dar banho aos doentes." É a esposa do senhor que está na cama ao lado do meu amor. Sorrio-lhe e sento-me ao lado.
- Atrasara-se hoje. Há muita gente para darem banho e estão muito atrasados. - Explica-me.
- Mhmm.
- Ainda vai demorar sabe. Pode ir tomar cafe ou assim.
- Oh, esperemos que não. - Sorrio-lhe.
- Vai, vai. eles ainda estão a ir para lá. E depois ainda vem para cá e depois ainda vão limpar o chão. Depois não nos deixam entrar logo porque o chão está molhado.
Sinto-me verde e endireito as costas.
- Não percebo como se podem atrasar tanto.
- Pois. - A senhora encolhe os ombros e olha para as mãos. - O meu Zé está pior. Vim mais cedo para falar com o médico mas já não estava cá nenhum.
- Como sabe que o seu marido está pior?
- Está com a mascara e não me responde. Já estive à porta a chama-lo e ele não responde.
Lembro-me do senhor sorridente e conversador no dia anterior e tento ser simpática com a senhora.
- Ontem estava bem, de certeza que não é nada.
Triste e com olhos vermelhos a senhora mexe no lencinho que tem nas mãos. Pouco depois um enfermeiro passa por nos e a senhora aproveita para perguntar pelo marido.
- Piorou um bocadinho. Mas não se preocupe já o vai ver.

Hora e meia depois finalmente é-nos concebido licença para passar no tão precioso chão. Feliz esqueço-me da reclamação que já começava a formular na cabeça. Ele está bem, está até meio sorridente. Aperto-lhe as mãos quentes nas minhas e começo a falar sem parar. Mexo-lhe no cabelo, beijo-lhe os mãos, olho para os aparelhos que o monotorizam, espreito-lhe para baixo dos lençois a ver se está tudo direitinho.
- Passei na inspecção.
- Mhmm, ainda não sei. Quando for buscar o urinol logo te digo.
Rimo-nos juntos.
Olho para a cama do lado e fico assustada, de respiração apertada e com um ritmo cardíaco de 35, vejo apenas uma amostra de gente. A senhora não consegue ver o mesmo que eu, fala-lhe e chama-o. "Oh Zé olha pra mim. Abre os olhinhos."
Ela não vê o mesmo que eu.
"Oh Zé, abre os olhinhos. Senhora enfermeira ele não está bem..."
Piorou um bocadinho disse o desgraçado do enfermeiro. Trinco o lábio para tentar controlar as lágrimas, olho para o meu amor e tento ser racional, "ele está bem, tal como o homem ontem" penso. Não consigo ser racional, não consigo ser optimista. Encosto a cabeça as pernas do meu amor e choro. Permito-me chorar. Pelo senhor que está a morrer, pela senhora que vai ficar viuva, pelo meu amor que está neste quarto a ver outros a morrer, por mim que tenho de ser forte. Choro o que tenho a chorar enquanto o meu amor me faz festinhas no cabelo.

Durante todo o dia a senhora chama pelo marido que não a ouve, e nem uma única vez vem um médico falar com a senhora.


Pelas 22h o meu amor liga-me e diz-me que o senhor acaba de morrer. Desligo o telemóvel e não choro. Começo a rezar. Um habito antigo que abandonei há mais de 8 anos mas que hoje senti necessidade de retomar.

MGL, S. António Porto, 9 Janeiro 2010.

Re: Porto - HGSA

Posted: 10 Jan 2010 04:01
by João Arctico
Gaminha wrote: Temos naquele momento o mesmo desespero e estou exactamente no mesmo lugar que eles.

A vida é feita de momentos e existem aqueles que nos fazem recordar que somos tão humanos e tão mortais como os restantes seres deste planeta. Umas vezes estamos ao lado duma cama do hospital, outras poderemos mesmo estar deitados nela.
O retrato é fantástico e o relato leva-nos a percorrer os corredores daquele hospital. Belo texto sem dúvida :tu:
E por vezes queremos acreditar em milagres: "Oh Zé olha pra mim. Abre os olhinhos."

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 11 Jan 2010 12:35
by Ripley
Gaminha, a tua escrita torna-se mais fluida quando deixas correr o que sentes, sem te debruçares sobre algo que te é alheio embora possas ou não conhecer o tema.
Este teu texto tocou-me; tal como o João, acompanhei os teus passos nos corredores frios, senti (de raspão) o medo ao olhar para o doente da cama ao lado, o receio de que algo não corresse bem, de que o teu mundo se desmoronasse - como o dela terá decerto colapsado naquela noite.

Gostei, Gaminha. Mesmo, mesmo. :tu:

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 11 Jan 2010 14:40
by pco69
Não sei se é ficcionado ou real, mas seja como for, os sentimentos que pretendes transmitir, estão lá.
Também gostei :)

Re: Porto - HGSA

Posted: 11 Jan 2010 16:28
by Gaminha
João Arctico wrote:O retrato é fantástico e o relato leva-nos a percorrer os corredores daquele hospital. Belo texto sem dúvida :tu:


Obrigada, fico contente por conseguir descrever o ambiente. :tu:

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 11 Jan 2010 16:28
by Gaminha
pco69 wrote:Não sei se é ficcionado ou real, mas seja como for, os sentimentos que pretendes transmitir, estão lá.
Também gostei :)


Infelizmente, só alterei o nome do senhor.
De resto...

Obrigada. :tu:

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 11 Jan 2010 20:12
by Pedro Farinha
Numa altura destas acho que tudo o que te posso enviar é um abraço solidário.

Quanto ao texto em si, incluindo a sequela, acho que poderia ir mais fundo nos sentimentos que sente a protagonista que imagino sejam ricos o suficiente para extraírem mais prosa. A um outro nível, não percebo porque é necessário à protagonista ir a um hospital para perceber que tudo o que a pode diferenciar das demais pessoas, é a roupa que veste ou a marca patenteada na mala.

PS. Nestas alturas em que toda a gente pensa em quem está doente, muitas vezes sofre mais quem está do lado de fora e se sente impotente para ajudar. Força!

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 12 Jan 2010 00:53
by Gaminha
Pedro Farinha wrote:Numa altura destas acho que tudo o que te posso enviar é um abraço solidário.

Quanto ao texto em si, incluindo a sequela, acho que poderia ir mais fundo nos sentimentos que sente a protagonista que imagino sejam ricos o suficiente para extraírem mais prosa.

Um texto curtinho e rapido que ajudou a relaxar. Dá sim para extender bastante.

A um outro nível, não percebo porque é necessário à protagonista ir a um hospital para perceber que tudo o que a pode diferenciar das demais pessoas, é a roupa que veste ou a marca patenteada na mala.

É uma constatação apenas... ou melhor, é nestas alturas em que se vê melhor o que está o tempo todo à nossa frente.

PS. Nestas alturas em que toda a gente pensa em quem está doente, muitas vezes sofre mais quem está do lado de fora e se sente impotente para ajudar. Força!

É verdade.

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 12 Jan 2010 18:54
by Samwise
Muito bom, Gaminha.

Percebo o que o Pedro Farinha diz acerca da profundidade a que a descrição dos sentimentos poderia ter ido, mas não considero o texto menos bom por causa disso: o certo é que está cheio de detalhes que fornecem ao leitor a identificação de que necessita para sentir, também ele, esses sentimentos. Talvez desta forma tenhas evitado cair na lamechice.

:bye:

Re: Porto - HGSA [1]

Posted: 12 Jan 2010 19:14
by Gaminha
Samwise wrote:Muito bom, Gaminha.

Percebo o que o Pedro Farinha diz acerca da profundidade a que a descrição dos sentimentos poderia ter ido, mas não considero o texto menos bom por causa disso: o certo é que está cheio de detalhes que fornecem ao leitor a identificação de que necessita para sentir, também ele, esses sentimentos. Talvez desta forma tenhas evitado cair na lamechice.

:bye:


"Evitar cair na lamechice"! Bem dito. E acho que há várias coisas no texto, não só a dor da perda, não só a proximidade da morte... temos a sensação de impotência, a reaproximação com Deus na hora em que precisamos, temos também o abuso de um pequeno "poder" (por mais absurdo que pareça), temos a incompetência médica ou do sistema de saúde, temos tanta coisa...

:rolleyes: Obrigada Sam.